A materialização do sonho de construir uma capital federal no meio do país, para enfim povoar o coração do cerrado brasileiro, completa 50 anos neste 2010. Imaginada por Jucelino Kubitschek e construída pelas mãos de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, Brasília é, nas palavras do jornal espanhol El País, o milagre do concreto em meio ao nada.
O sonho progressista se desvaneceu paulatinamente para dar lugar a 25 anos de período não democrático, afirma uma reportagem especial sobre Brasília aos 50 anos postada no site Elpais.com (La ciudad soñada, 25/1/10). Daquela época para os dias de hoje, pouca diferença se nota: na cidade em forma de avião, a população se concentra longe do centro da cidade, reservado para os funcionários exerçam a atividade pública.
Alguns críticos dizem, porém, que o desejo de unir as largas avenidas à então promissora indústria automobilística, símbolo do desenvolvimentismo dos anos 50, fez com que o projeto de uma cidade planejada não funcionasse por muito tempo.
“Kubitschek queria que fosse um símbolo de seu compromisso com o desenvolvimento industrial. Mas os blocos de apartamentos separados por grandes espaços vazios parecem especulações teóricas. Os ricos iam e vinham avião. Os pobres foram obrigados a viver nesse vazio ", explica ao El País o historiador William J. R. Curtis.
Outro urbanista ouvido pelo jornal, Manuel de Solà-Morales, discorda da crítica, e afirma que Brasília tem distritos residenciais muito interessantes, que mesclam a escala doméstica com a vegetação, os passeios públicos e os espaços comuns.
A capital brasileira, para Solá-Morales, é "um dos exemplos mundiais mais respeitáveis da boa cidade racionalista". O urbanista acredita que a densificação populacional tornará Brasília melhor para se viver. Mas para Niemeyer, ao contrário, esse é um problema: "Chegaram os capitalistas e não querem que a cidade deixe de crescer. Isso não é certo. Brasília deve parar", diz o criador . Mas ela não para.